ficção, história, música

a-linha-narrativa nº2: o que é o futuro?

 

A Baronesa Elsa usava um sutiã de lata de tomate, os cabelos raspados nas laterais e colares de luzes piscando. Seu guarda-roupa e suas performances deram o que falar na cena underground de Manhattan nos anos 1910. Ela flutuou sobre o presente, porque ele foi incapaz de dar conta de tudo o que ela era. Uma pessoa do futuro habitando o passado.

Um desenho de Elsa voando estampa a capa de “Memórias do Futuro” (2019), o livro mais recente da escritora estadunidense Siri Hustvedt (ainda sem versão em português). A narrativa não é sobre Elsa e sim sobre S.H. (um tantinho autobiográfico), uma mulher que relembra sua chegada a Nova York no final dos anos 1970, e sua ansiedade pelo porvir nessa época. A memória de uma expectativa de futuro é um dos motores do livro. Para Siri (que também publica em periódicos de neurociência) as memórias não se mantém íntegras, vão aos poucos se intoxicando de imaginação.

“Nostalgia Futura” é o nome do novo álbum da britânica Dua Lipa. A cantora de 24 anos pontua sem medo quais foram suas referências nas décadas de 1970, 80 e 90 para criar um disco-delícia, companhia perfeita para animar a faxina na quarentena. A mimese bem construída do passado atrelada à narrativa feminista atual se encaixa perfeitamente com os anseios do presente, por isso o sucesso instantâneo.

O #tbt se tornou commodity. Exemplos rápidos – Sandy & Júnior e Spice Girls se reuniram para fazer shows com ingressos salgados. O mercado de discos de vinil expandiu. Eletrodomésticos, rótulos de cosméticos e barbearias com o layout dos anos 1950 se tornaram carimbo do estilo de vida hipster. A textura sujinha das fitas VHS aparecem em filtros do instagram. Peças de roupas com os logos do Planet Hollywood e do Hard Rock Café se tornaram peças-fetiche. Reproduções do Windows 95 e do MSN Messenger aparecem em vídeos do youtube. Remakes dos filmes clássicos da Disney em live-action se tornaram uma franquia lucrativa. Uma campanha publicitária de carro relembra o desenho “Caverna do Dragão”. “The Queer Eye” e “Gilmore Girls” atualizaram formato e capítulos respectivamente. Revistas de moda tuitam sobre o estilo de “Sex and the City”. E um especial de “Friends” é ansiosamente esperado.

Esses entre tantos exemplos são uma viagem curta, sobre asfalto novo e céu de brigadeiro para a memória afetiva dos Millennials e da Geração X, as faixas etárias que representam a maior parte da força de trabalho no mundo hoje e portanto os donos do dinheiro. A tecnologia é do século XXI, mas o conteúdo cultural mainstream parece estar ilhado no século XX, como sugeriu o escritor e crítico musical britânico Mark Fisher (1968-2017). E essa ilha fica mais remota graças ao efeito “sala de espelhos” arquitetado pelos algoritmos das redes sociais.

Um estudo global encomendado pela plataforma de streaming Deezer publicado em 2018 revelou que “os brasileiros param de descobrir músicas novas ao 23 anos” (os setlists de festas de casamento e de aniversário de pessoas 30+ ilustram perfeitamente esta estatística). O principal motivo para o cessar da curiosidade musical é a ausência de tempo livre. Na Alemanha, como as condições de vida e de trabalho são melhores que aqui essa idade avança até os 31. Li essa notícia em novembro de 2018, mesmo mês da eleição do Bolsonaro, que foi eleito atrelado a pautas morais retrógradas e claramente inspirado por D. Trump, cujo slogan de campanha foi “Fazer a América grande de novo”. Em comum os dois também tinham amplo conhecimentos dos gostos dos seus eleitores ardilosamente mapeados pela Cambridge Analytica, conforme foi revelado no documentário “Privacidade Hackeada”. Ou seja, apostar no passado usando fake news foi um tiro certeiro (e fatal) na psique do eleitorado.

O passado é um modus operandi na nossa sociedade?

Fiz essa pergunta à Rebeca de Moraes, psicanalista e diretora da consultoria de tendências Trop, do grupo Consumoteca (e já que a nostalgia está na pauta, colega dos áureos tempos da blogosfera =). Ela me contou o seguinte:

“Por um lado, entre os Millennials mais novos e na Geração Z há o mimetismo de artistas, linguagens e demais referências colhidas nas redes sociais, especialmente no youtube e em produções ambientadas em períodos históricos anteriores, como “Stranger Things”.
Por outro lado, há uma certa infantilização das pessoas da Geração X e dos Millennials, criados em um ambiente econômico otimista no qual o futuro era previsível. ‘seguir os sonhos’, ‘confiar em si mesmo’ foram narrativas difundidas. Por isso são pouco treinadas para as frustrações da vida e tendem a buscar refúgio no passado.
O mercado caminha a passos largos para uma dinâmica moldada por trabalhos de curtíssimo prazo e fica difícil se planejar. Essa incerteza explica, por exemplo, o boom de influenciadores ligados à astrologia e ao tarot. São formas de ter alguma pista do futuro.
Essa ‘mania de passado’ é inerente ao ser humano, porque o passado não oferece surpresas. É um lugar confortável”.

E se perguntarmos para a Siri “O que é o futuro?”,  ela vai responder: “O futuro é ficção”.

 

***
Elsa Hildegard, a Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven (1874 – 1927) nasceu na Alemanha, foi artista e poeta e integrante do movimento dadaísta.

Siri Hustvedt é escritora e PHD em literatura. Ela advoga fervorosamente que a obra mais famosa de Marcel Duchamp foi na verdade criada por Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven.

“Dua Lipa afronta os padrões da música pop em “Future Nostalgia”. Essa resenha também faz menção ao disco do Baiana System cujo título é o “Nostalgia do Futuro. O Futuro não Demora” – também conectado com o zeitgeist de futuro indefinido.

cinema, televisão

Vamos falar sobre roteiro de não-ficção?

Tenho visto por aqui algumas postagens sobre roteiro de não-ficção e resolvi palpitar. Há 12 anos me dedico à projetos de não-ficção (leia-se reality, variedades e documentário) e posso assegurar que o papel do roteirista nesse segmento, principalmente em documentários, está bem longe de ser um consenso. E, na minha humilde opinião, deveria ser. Para abrir a reflexão listo os modelos de trabalho que já experimentei: .

DOCUMENTÁRIO
01 – Roteirista entra na pós-produção com a missão de estruturar o material bruto captado*
02 – Entra na etapa de pré-produção e planeja junto com o diretor (e equipe de pesquisa) o conteúdo a ser captado.
03 – Entra da etapa pré-produção desenvolve todo o conteúdo e entrega para o diretor captar.
04 – Entra na etapa de pré-produção, desenvolve o conteúdo com o diretor e faz as entrevistas no set.
05 – Entra na etapa de pré-produção, desenvolve o conteúdo com o diretor, faz as entrevistas no set e faz o roteiro do material bruto na pós-produção (o melhor dos mundos).

REALITY SHOW
(o roteirista também é chamado de Story Producer):
01 – Entra na pré-produção com a equipe de casting e pesquisa para estruturar as escaletas de gravação das possíveis histórias
02 – No set de filmagem: fica atenta aos acontecimentos e fica responsável por fazer os famosos depoimentos do reality (são eles que apimentam o conflito da narrativa)
03 – Na pós-produção: corta o texto e estrutura a narrativa do material bruto*, fazendo uma pré-seleção para o montador
04 – As três funções anteriores combinadas (também, o melhor dos mundos).

*estruturar o material bruto tanto em documentário quanto em reality pode ser feito de três maneiras:
I. em um arquivo de texto em tabelas de imagem áudio
II. na ilha de edição ao lado do montador ou assistente instruindo-o: “corta isso, deixa aquilo”
III. diretamente no software de edição.

Sou adepta da terceira opção porque é MUITO mais prática e rápida do que as duas primeiras. E ao contrário do que se possa pensar, só é preciso saber comandos básicos do software. Os montadores costumam gostar mais da segunda e da terceira porque já trabalham direto em uma timeline e não precisam ficar caçando os TCs no material bruto ;).

VARIEDADES/ INSTITUCIONAL
Esse talvez seja o caso mais bem resolvido da função do roteirista em projetos de não-ficção.
01- Na pré-produção: roteirista escreve as falas do apresentador/ narrador do projeto e eventuais pautas.
02 -Na pós-produção: Roteirista cria textos de off em cima do material bruto
03 – As duas opções anteriores combinadas

“Resolve na ilha”
Nesses anos teve de tudo. Vi projeto dar super certo porque teve roteiro desde o começo e um planejamento de conteúdo legal. Contudo, também vi projeto com premissa maravilhosa naufragar porque não teve planejamento de narrativa na pré- produção e o material captado no set foi ineficaz na pós-produção. E vi projeto bem planejado na pré e bem captado no set, derrapar na pós porque não tinham alguém com o olhar exclusivamente para o conteúdo na edição e o montador estava perdido e/ou sobrecarregado. Vi projeto dar super certo, as custas de muito desgate da equipe de pós-produção.

Roteiro para documentário é o que mais gera confusão. A herança do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” de certa forma moldou a maneira de fazer documentário no Brasil. Se estamos falando de um documentário autoral sem questões de orçamento e prazo fixo de entrega o céu é o limite. Contudo, quando falamos de projetos comerciais com prazos de entrega (cada vez mais) restritos ter um roteirista desde o primeiro momento é muito importante porque ter um planejamento de captação do conteúdo poupa MUITO dinheiro e estresse no set de filmagem e principalmente na pós-produção.

Em tempos pós-pandemia, com os sets restritos, a criatividade do roteirista será ainda mais necessária para ajudar a criar a linguagem narrativa e de captação de projetos de não-ficção.

O roteirista é o arquiteto do audiovisual. Ele que cria o projeto da obra que será executada. O roteirista de não-ficção tem que ser tão ou mais criativo do que o profissional que se dedica à ficção, já que é preciso achar soluções a partir do que já está dado. E no final o objetivo de ambos é exatamente o mesmo: contar uma boa história.

PS: Ah! Na Argentina, onde estudei roteiro, o nome do roteirista entra na sinopse de jornal, ao lado do nome do diretor. Um dia a gente chega lá ;).

arte, blog, crônica, história

a-linha-narrativa nº1: “tecer por um texto”

Começou com a escultura da Durga. Ela tem oito braços e cada um deles possui uma habilidade específica. Foi arquitetada pelos deuses hindus para lutar contra Mahishasura, o demônio búfalo responsável por espalhar a barbárie no mundo. Como tudo nas histórias que compõem a mitologia das religiões, Durga é você, sou eu, somos nós e a interpretação do livro sagrado fica a gosto do freguês.

Ao olhar a obra apita na memória a ilustração de um livro da infância “Suriléia, mãe monstrinha” (1984, escrito por Lia Zatz e ilustrado pela Eva Furnari). A protagonista é a Durga cotidiana, uma mulher comum que de repente se transforma em uma criatura com duas cabeças e muitos braços para conseguir dar conta dos filhos, do trabalho e de todas as outras tarefas.

Voltemos à Durga original. Imagina que cada braço representa um setor da vida: a família, a saúde, o amor conjugal, a amizade, os objetivos pessoais, o lazer, intelecto e o trabalho. Como um jogador de tênis, um braço sempre estará mais exercitado do que o outro.

Imagina agora que uma linha emana de cada uma das oito mãos, como na roupa do Homem-Aranha. São as nossas linhas narrativas. Quando nascemos elas se fixam como um urdume de tear manual. Colocamos-as separadamente nas navetes e jogamos em vaivém. No começo da vida o fio da família predomina, depois chegam as linhas das amizades, dos estudos, dos objetivos pessoais, do amor conjugal, do trabalho. Dia-a-dia o tecido ganha uma camada.

E é difícil a coreografia do entra-e-sai das navetes nesse tear vital estarem cadenciadas como uma partitura de valsa. As linhas narrativas se movimentam com diferentes trajetórias, como um eletrocardiograma saudável, os gráficos de movimentação das ações na bolsa de valores, o fluxo de tráfego aéreo no mundo, ou qualquer infográfico capaz de ilustrar e mensurar a realidade que nos cerca porque já nascemos costurados a um Sistema.

Trabalho é a linha que costuma correr frenética. Ao longo do tempo ela pode ganhar densidade de uma corrente, brusca e inflexível. É comum ela inverter a ordem natural das coisas e fazer dos nossos braços suas marionetes, boicotando voluntariamente o movimento das outras linhas narrativas. Ao longo do percurso a gramatura dos fios oscila.

Saúde, família, amor, amizade e objetivos pessoais podem rarear no desenho da trama ao longo do tempo. Podem até ficar tênues em alguns momentos, mas nunca (nunca) invisíveis porque elas compõe a estrutura inaugural do urdume. Quando negligenciadas na coreografia das navetes, essas linhas se infiltram e se enroscam de qualquer maneira. Por um tempo é possível até seguir sem lhes dar muita importância, contudo, elas vão criando nós indissolúveis e, de repente, é preciso desfazer o tecido e recomeçar.

A pandemia nos sugere observar com quais as linhas narrativas vínhamos preenchemos o nosso tear, quais foram os nós deixados pelo caminho, e, sobretudo, que somos apenas retalhos de um Sistema muito maior. Estamos atados uns aos outros.

A ideia do texto surgiu a partir da visita ao museu Rubin e ganhou corpo nos encontros com o artista Alexandre Heberte. Enviei esse texto para ele que me devolveu a carta abaixo.

 

A teia de aranha tecida pelo polvo, oito braços, cada um com universo mental independente.
Que teia será dada?
Tecer por um texto. Escrita escuta

O fio vai e volta. As mãos ainda desengonçadas com a nova maneira de lidar com a agulha e fio, tenta acertar. Passos ritmados da escuta e movimento, daquilo que lhe foi orientado fazer: têxtil manual, tecelagem. Furar tela, estruturar urdume ou fio de sustentação e sobre eles abstrair, pintar tela com os fios. Traçar, preencher, compor, dar forma, como se explica isso?

Para quê? Por que se tece?
Resposta: para sair da zona de conforto. Para atiçar a mente, voltar a realidade do presente que se tece duíte a duíte (Duíte é o termo utilizado pelos tecelões, diz sobre a carreira formada, do fio vai e volta pelo urdume, esse ir e vir entre a cala, abertura dos fios paralelos do urdume, fios pares e impares que se intercalam, a trama se completa).

Qualquer resposta ainda é insuficiente, por que a trama está em aberta.
O presente como experiência do urdir, tramar, ouvir respiração do processo, o mais próximo de uma atenção plena, coração e mente. O ato da arte-manual e a práxis do depois, do fato vivido e sentido e percebido e…. o que se faz?

Prender urdume no papelão. Criar espaço contorno para fazer tecido, renda, uma trama experimental. Tecido pronto, soltar ele do suporte.

A liberdade de fazer uma estrutura ordenada, figurativa ou abstrata, linda ou caótica, com ou sem sentido do seu uso, simplesmente por fazer; as mãos dançam, buscam entendimento de realizar um comando que vem da mente…. Você precisa entrelaçar ou dar nós. Você precisa prender fios que vão estar delimitados pelo espaço de trabalho proposto. Parece simples, parece fácil, ou nada simples ou nada fácil. De cada um, jeito próprio que será assimilado. Para ganhar tempo.

Quando se tece a trama, decorre muito tempo, é muito lento, repetitivo, ponto a ponto. No que a mente divaga, sobre o que se fala, como se pensa? Se revela o quanto presente, ou quanto consciente se distrai com as camadas sucessivas que se apresentam nas horas atarefadas.
Se se apresentam, que diz essas memórias que emergem a superfície?

Sem propósito claro ou definido você veio tecer. Aceitou minha proposta de viver experiência da trama texto. Quando se trama a razão e o pensamento, cedem lugar para as entre linhas, o de vir: textura, relevo, densidade, tensão, cores, misturas, elasticidade. A mente pensa que sabe fazer, as mãos indagam: como fazer? A mente quer uma coisa, as mãos fazem outra. Mente e mãos. O toque e o fluxo de energia.

Seu texto me fez pensar no polvo, com seus tentáculos independentes, parece que cada um deles tem um sistema mental independente. Agem de própria vontade.

De repente você constrói e engendra uma teia que trata da vida como um todo e partes tão afastadas de si. Éramos todos independentes sem darmos devida atenção para tanta interdependência.

A vida: amor, trabalho, amigos, família, política, estudo, saúde, lazer. Para cada parte, pulsões desenlaçadas, combinações frágeis, que se tramam com o universo do outro tal qual. O quebra-cabeça das minhas partes se relacionam como o quebra cabeça do outro.

Quando se tece as partes se unem e parecem fazer mais sentido. A trama ordena a mente. Ou talvez simplesmente se amplie repertório para tratar das questões que se borda na superfície.

Eu particularmente tenho que trabalhar uma escrita mais objetiva, para não viajar com mercúrio e netuno em peixes. Seu texto faz isso por mim, cria analogias que indicam um entre tantos caminhos possíveis, pois a verdade é essa: depende de quem a aceita e endossa.

Tantas lives e indagações de como será depois da pandemia: moda, design, arte, shows, futebol, carnaval, bares, festas, trabalho, vida!!! Trama desconhecida. Corpo afetado, cabeça, mente, tudo em rebuliço. Calma, respira. Faça bolo, faça arte, escreva e estude.

O grande segredo disso tudo que está acontecendo agora é ser ético, moralmente visível de atitudes que se relacionam em equilíbrio com a natureza. Humana e linda, trabalhando para dar sentido a todas as partes, que relaxadamente ou tensionadas ao máximo, e mesmo assim unidas, se dão conta de saúde, vida e amor.
Coragem de inventar um novo jeito de fazer as coisas, de expressar sentimentos.
Trama em aberto, escrita escuta.
Beijos e carinho.

ficção, história, livro

Penélope #ficaemcasa

“Penélope e os pretendentes”​ John William Waterhouse (Museu: Aberdeen Art Gallery)

Encontrei a “A Odisseia de Penélope” da Margaret Atwood quando estava em busca de referências sobre a relação entre o tecer e a passagem do tempo (motivo no post anterior).

Antes de falar do livro é importante explicar quem é Penélope na fila do pão da Mitologia Greco-Romana. Ela foi a rainha de Ítaca, esposa de Ulisses (ou Odisseu) e, colocando no termos de hoje, foi um #ficaemcasa de 30 anos a espera do marido. Sua ausência começa na Guerra de Tróia e continua em um conjunto de missões impossíveis, entre as quais, matar um ciclope e se esquivar do canto das sereias. Ficou conhecida como a “Odisseia”. O livro foi escrito por Homero uns 1000 anos Antes de Cristo e é a sequência da Ilíada. Este volume, por sua vez, relata a Guerra de Tróia, cujo desfecho foi o “presente de grego”, o Cavalo de Tróia (também vírus de computador mitológico da antiguidade digital), uma estátua gigante com todo o exército dentro. Esta ideia genial deu a vitória da batalha à Grécia e foi arquitetada pelo marido da Penélope. Diferente do capitão do exército opositor, o troiano Aquiles, aquele do calcanhar, Ulisses é celebrado por sua astúcia e não por seu físico avantajado (arquétipos legíveis na vida e na arte). Helena foi a beldade responsável por desencadear essa Guerra. Ela era casada com Menelau, foi sequestrada por um loucamente apaixonado Páris e era a prima da Penélope. A Ilíada e a Odisseia eram tipo livros para inspirar “o mindset” dos jovens do seu tempo. Considerando o ponto de partida da Ilíada, uma lição é bem clara: cuidado com as mulheres, elas podem desencadear uma guerra.

Agora que todos perderam o fôlego, é a minha vez de fazer o relato.
Vou tecer minha própria narrativa.

M. Atwood. faz uma correção histórica e cria uma voz póstuma para Penélope:

Muita coisa é sussurrada nas cavernas escuras, nos prados,
e por vezes é duro saber se os sussurros vem dos outros
ou de dentro de nossa própria cabeça.
Uso a palavra cabeça no sentido figurado.
Aqui nos livramos das cabeças.


Não consigo que me compreendam,

não as pessoas do mundo de vocês,
do mundo dos corpos e das línguas e dos dedos;
na maior parte do tempo não tenho ouvintes,
não do seu lado do Rio.
Entre vocês, quem consegue captar facilmente um murmúrio perdido,
um grito solto, facilmente confunde minhas palavras
com o som da brisa nos juncos,
morcegos ao crepúsculo, pesadelos.

Sarcástica e sem a necessidade o filtro do mundo terreno (lembra o Bráz Cubas no clássico “Memórias Póstumas” de Machado de Assis), em sua visão a espera não foi nada de poética ou romântica. Como era uma mulher de posses a rainha teve um trabalho hercúleo para desviar dos chamados “pretendentes”. Eles perambulavam ao redor da casa em busca de suas riquezas, do conforto da mansão com coluna grega e dos muitos escravos. Também teve que aguentar a sogra grosseira,

Quando eu tentava falar com ela, a velha nunca olhava para mim enquanto respondia,
dirigindo seus comentários a uma banco ou uma mesa.
Como convém nas conversas com os móveis,
seus comentários eram duros e cheios de farpas.

cuidar do filho recém nascido sozinha e do sogro moribundo. Foi para ele que Penélope teceu a mortalha. O prometido era: quando ela terminasse a peça se casaria novamente. Por isso ela adotou a estratégia de tecê-la de dia e desfazê-la à noite. Esse truque conferiu a essa figura mitológica o carimbo de “mulher inteligente”. Atwood, no entanto, relaciona o faz-desfaz do tecido a um instinto de autopreservação da rainha. Pouco tem a ver com um suposto amor eterno a Ulisses.

Eu passava o dia trabalhando em meu tear, tecendo diligentemente enquanto dizia coisas como
“Esta mortalha seria mais apropriada para mim do que para Laertes, pois estou desconsolada e condenada pelos deuses a uma vida que é como a morte”.
Mas de noite eu desfazia o que tecera,
para que a mortalha jamais fosse terminada.

Penélope póstuma tem uma índole bem longe de ser 100%. Sempre se referia a Helena com desprezo. Nitidamente se corroía de inveja.

Contive o desejo de afirmar que Helena deveria ficar presa num baú trancado num porão escuro, pois levava veneno entre as pernas.

Vale ressaltar que essas duas figuras moldaram arquétipos de personagens femininos presentes até hoje nas narrativas: Penélope “a inteligente” e Helena “a bonita”.

Na estrutura do livro nota-se uma grande intimidade da escritora com textos da mitologia greco-romana. Ela intercala os capítulos entre a narração em primeira pessoa de Penélope e o coro das escravas “a voz da consciência”, por exemplo:

Somos as escravas
Que vocês mataram
Que vocês trairam

Dançamos leves
Pés descalços no ar
No injusto balançar

Em “A Odisseia de Penélope” não há muitos detalhes sobre o figurino das personagens, contudo, em sua obra mais famosa “O Conto de Aia” ela pensou de antemão nas roupas, especialmente nas das Aias. Ela chegou a cogitar a possibilidade de ser estilista profissional. Até hoje ela faz croquis para os personagens dos seus livros. Revelou esse hábito em um encontro no ciclo de palestras “Fashion and Fiction” promovido pelo museu Victoria & Albert de Londres, onde também segredou uma peculiar adoração pelos vampiros e seu estilo – “são sensuais”, e um desprezo total pelos zumbis.

PS: Arrisco dizer que as escritoras utilizam este recurso descritivo das roupas de forma mais hábil por terem a moda em seu léxico mais cotidiano. A escritora anglo-jamaicana Zadie Smith faz isso de maneira brilhante em seu livro “Ritmo Louco”. Super recomendo. Aliás, ela mesma, Zadie, é um ícone de estilo e virou verbete neste livro aqui.